Memória
Seu nome era Guilherme
Relato de Blanchard Girão sobre seu avô materno, Guilherme Regino de Oliveira, e sua passagem pela Amazônia na esteira da Missão Rondon.
Várias vezes ouvi, de minha inesquecível e idolatrada mãe, Maria Luiza Girão de Oliveira (Ribeiro pelo casamento com meu pai, José Augusto Ribeiro), o mesmo e carinhoso comentário sobre seu pai e meu avô, Guilherme Regino de Oliveira, a quem não tive a ventura de conhecer: “era um homem de uma mansidão sem par. Jamais levantava a voz contra qualquer pessoa, muito menos para conosco, seus filhos”.
Meu avô materno, essa criatura mansa e serena, participou direta e efetivamente da grande epopéia do desbravamento da Amazônia, naqueles princípios do século passado.
Atingido pela seca inclemente de 1915, um dos mais terríveis flagelos dessa histórica maldição climática nordestina, Guilherme Regino, com a esposa, Felícia Carneiro Girão, e a prole numerosa, de meninos e meninas, tomou um velho paquete do Loide no porto de Fortaleza para um mergulho na desconhecida e misteriosa selva.
Atendia a um convite do parente amigo, o então tenente Tibúrcio Cavalcante, integrante da Missão Rondon, que varava heroicamente as desafiadoras entranhas do chamado “inferno verde”.
Mamãe, nascida em 1908, tinha à época dessa aventura apenas 8 anos de idade. Porém, possuidora de prodigiosa memória, recordava a vida inteira dessa viagem de tantos e tão altos riscos. Contava-me que, de Manaus até atingir o barracão onde deveriam ficar abrigados, um gaiola, subindo o Madeira, um dos maiores afluentes do Amazonas, levava nada menos de dez dias.
O “barracão”, montado e gerido por meu avô, se transformaria, com o passar dos anos, em Ariquemes, presentemente uma das mais importantes cidades do atual estado de Rondônia.
Com a sua mansuetude, Guilherme Regino adequou-se perfeitamente ao princípio filosófico sob o qual agia o bravo Cândido Mariano da Silva Rondon, então na patente de major do Exército, cujo lema, no tratamento com a indiada, era “morrer se preciso for, matar nunca”.
O índio, filho da selva, era o seu dono — entendia Rondon — e como tal deveria merecer do homem branco, intruso civilizador, todo o respeito e carinho.
Foi dentro dessa norma que meu doce avô passou a atuar, tornando-se ele e sua família amigos queridos da tribo Ariquemes. Mamãe, por exemplo, relembrava o indiozinho que ganhou o nome cristão de Benjamin, seu coleguinha de folguedos infantis, que crescia sem se acostumar a vestir calça. Usava apenas a blusa ou paletó que lhe davam.
Naquelas terras úmidas, comendo carne de caças diversas, peixe abundante nos rios e igarapés, ou ainda ovos de tracajá, a família de Guilherme e Felicinha viveu ali por longa temporada. Terrível era a praga de mosquitos, notadamente das carapanãs (muriçocas, como chamamos), que infestavam o barracão e a maloca dos nativos de febres palustres. O tratamento, à base de quinino, debilitava o organismo, tornando-o vulnerável a infecções invasivas de maior gravidade.
Assim, em 1917, Guilherme Regino, com somente 41 anos de idade, contraiu uma pneumonia que lhe foi fatal.
Vó Felícia, que já havia perdido a filhinha caçula, Carmem, vitimada pelo impaludismo, viu-se na viuvez e na pobreza. Os filhos varões – Childerico e Antonio, bastante jovens, não estavam devidamente habilitados para assumir as responsabilidades de manutenção da família.
Havia, entretanto, um novo membro na casa: Ananias Frota Vasconcelos, o “comandante” Frota, cujo batelão acostava costumeiramente no improvisado ancoradouro de Ariquemes. Ali ele viu e logo deslumbrou-se com a beleza juvenil de Aline, menina-moça de 15 anos, a mais velha da prole. Com ela casou, assumindo, desse modo, a liderança familiar. Tratou o mais depressa possível recambiar a sogra e seus cunhados e cunhadas de volta ao Ceará, onde chegaram no alvorecer da década dos 20 do século anterior.
Anos adiante, retornando ao Amazonas, Ananias Frota trouxe daquelas plagas os despojos do meu avô e de sua caçulinha Carmen, que hoje dormitam em túmulo no Cemitério São João Batista, em Fortaleza.
Humilde, manso e bom, Guilherme Regino deixou a lembrança do seu caráter e algumas cartas trocadas com Cândido Rondon, comprobatórias de sua silenciosa porém heróica participação na conquista da Amazônia.
Blanchard Girão